Genética Da-Car viaja o Brasil colecionando conhecimentos O Nelore Mocho do interior paulista conquistou as melhores pistas do país

Dalila Cleopath Camargo Botelho de Moraes Toledo não tem o costume de sair de feiras pecuárias sem premiações. Carrega consigo uma equipe para preparar os animais, desde a inseminação até a entrada na pista. Um time de admiradores conquistados pelo carisma de Dalila e que hoje faz coro na hora da torcida e nas constantes comemorações.

A Expo Rio Preto, em São José do Rio Preto, interior de São Paulo, viu a nelorista ser Melhor Expositora e Melhor Criadora de 2012. Em Uberaba, na pista mais pesada do mundo, o Nelore Mocho da Da-Car deu a Dalila os mesmos títulos. A Emapa, exposição tradicional de Avaré, também a premiou como a melhor em suas últimas duas edições. Este ano, além da Emapa, a criadora já arrebanhou os grandes títulos na Expoinel MT, em Campo Grande.

Graças ao seu trabalho e à sua dedicação, está há três anos consecutivos como Melhor Expositora e Criadora do Ranking Nelore Mocho e, em 2011/2012, no Ranking Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB),  sem contar os inúmeros prêmios individuais pelos seus animais. Com muito trabalho, a Da-Car imprime sua qualidade no Nelore Mocho.

Há 18 anos na criação de Nelore, optou pelo caráter mocho devido ao temperamento dos animais: mansos, calmos, de lida fácil. Admiradora da característica, Dalila ressalta o gênio meigo, para ela, “de temperamento melhorado”.

Talvez essa admiração seja reflexo da própria tranquilidade da criadora. Sempre elegante, desfila pelo mundo da pecuária com calma, fazendo-se exceção em um universo dominado pelo sexo masculino. Acompanhada da família grande e dos amigos conquistados pelo caminho, Dalila tomou seu posto de criadora. Uma das melhores.

Os olhos azuis refletem com a mesma serenidade as felicidades das conquistas e as dificuldades do dia a dia. Dalila sabe que a profissão que ela escolheu por amor não é fácil. “É um trabalhão. Um caminho percorrido com dificuldade, muitos gastos. É preciso ter amor, muita dedicação e uma equipe que trabalha muito, como a nossa, que é formada por veterinários especialistas, capacitados para começar o trabalho desde o acasalamento”.

Entre os segredos do sucesso constante estão a equipe de reprodução eficiente com muitos anos de trabalho e a equipe de funcionários da Da-Car, com seu amor e dedicação. “Cada um no seu setor, juntos fazem a integridade do plantel Da-Car”, diz Dalila, que acolhe seus funcionários como sendo parte da família.

Os tantos percalços ficam pequenos quando se fala de amor. “Tem hora que você desanima, quando só vai e nada vem em troca. Para estar há três anos consecutivos como Melhor Criadora da Raça Nelore Mocho, não foi fácil. Em compensação, vale a pena pela raça e pelo melhoramento genético que estamos conseguindo”, garante.

A genética Da-Car

Dalila escolheu primar pela qualidade. Na Fazenda São José Da-Car, em Santa Maria da Serra, interior paulista, a criadora tem um plantel da melhor genética do Nelore Mocho. São animais que se destacam pela fertilidade, rusticidade, pelo padrão racial e pela beleza.

Um destaque e orgulho da nelorista é Formiga Da-Car, Melhor Progênie da ExpoZebu 2012 e Melhor Matriz no Ranking da ACNB 2011/2012. A vaca é produtora de genética campeã. Todas as suas progênies foram premiadas. Somente na última geração foram seis. “O caso dela é muito importante, porque Formiga é mãe só de filhos premiados. É algo muito difícil de acontecer”, orgulha-se Dalila.

A Fazenda São José Da-Car foi palco de outra raridade. A vaca Fortaleza Da-Car pariu trigêmeos. Todos machos e férteis. Filhos do cruzamento com Backup AAAP 1653, frutos de inseminação artificial. O caso de trigêmeos em si já é raro e entre bovinos geralmente são dois machos e uma fêmea, que nasce infértil. O mais incomum, portanto, é nascerem três machos, consequentemente, férteis.

Paulus Da-Car, Petrus Da-Car e Petronius Da-Car nasceram em dezembro e, aos cinco meses de idade, estão se desenvolvendo bem e a cada dia mostram mais o resultado da genética Da-Car. Mais coisa boa vem por aí. A mãe dos trigêmeos já está com prenhez confirmada do mesmo touro.

 “Tudo na criação tem seu lado bom. Traz satisfação, alegria. Fico orgulhosa de ver que estamos conseguindo alguma coisa sempre. No caso dos trigêmeos que nasceram, foi um orgulho enorme. Nasceram bons, com saúde e férteis. A mãe é boa de leite. Isso já é resultado de trabalho nosso”, comemora.

Há três anos em parceria com a Associação Nacional de Criadores e Pesquisadores (ANCP) e a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), o melhoramento genético foi acelerado. “A parceria mudou a qualidade do nosso gado, melhorou muito nosso nível”, conta Dalila.

Trilha de triunfos

Paulista de Piracicaba, Dalila cresceu na cidade, estudou na capital do estado, foi interna do Colégio Santa Marcelina. Morou sempre na cidade, mas considera que é como se tivesse nascido na fazenda. A propriedade que hoje serve de criatório para o Nelore Da-Car era do pai de Dalila, José Dias Botelho. O patriarca da família criava gado Caracu e a filha o acompanhava no campo desde pequena. O avô da criadora foi Antônio José de Camargo, um dos maiores cafeicultores brasileiros. Em 1925, ele ganhou um diploma certificando o título, que Dalila guarda carinhosamente até hoje. “Uma família da roça”, resume a pecuarista.

Antes de se tornar nelorista, Dalila trabalhou com as raças europeias de corte Chianina e Marchigiana. Pelo gado chianino, esteve na Itália e importou 40 animais, que desceram no aeroporto de Vira-Copos, em São Paulo. Chegou a ser Pentacampeã nacional da raça. Com todas as raças, a busca era pela qualidade.

Foi casada com Carlos de Moraes Toledo por muitos anos e muito feliz. “Embora meu marido não gostasse de fazenda, nunca se opôs à minha vocação, sempre me ajudava”. O casamento lhe deu três filhos, cinco netos e uma bisneta.

Na década de 1990, já tinha alguns animais Nelore Mocho, quando recebeu dois embriões de filhas da Federação, grande pilar da raça. Gerou Quimera Da-Car e Ribalta Da-Car. Duas linhagens diferentes de uma das melhores matrizes da época.

“As duas entraram para um regime de TE e depois FIV. Fomos fazendo o melhoramento genético, aprimorando juntamente com as outras que tínhamos. Como minha fazenda é pequena, resolvi começar um plantel importante. Então, aprimorei. Como não era possível ter em números, resolvi ter em qualidade”.

O primeiro prêmio com o Nelore Mocho foi em Avaré, com uma dupla de “tremer a pista”, nas palavras da criadora. Faceira Da-Car e Figura Da-Car foram as campeãs de suas categorias. Foi um incentivo vindo em boa hora. “Decidi vender uma das campeãs para incentivar a raça. A decisão foi difícil, mas a resolução foi vender Figura Da-Car, em Uberaba, e ficar com a Faceira Da-Car, que está até hoje no nosso plantel como Doadora e nos dando muita alegria”.

Vendida para João Aguiar, a Novilha Figura Da-Car trouxe prêmios para o criador e alegria para Dalila. “Em parte ficamos satisfeitos pelo animal premiado ter saído do criatório Da-Car. A Faceira Da-Car também teve muitos filhos bons e premiados”, conta.

Razão de continuar

Dalila já pensou em parar a criação e se aposentar, mas, olhando ao redor, percebeu que ainda é cedo para acreditar que sua trajetória até aqui já foi o suficiente. “Aprendemos a conhecer a raça em todos esses anos e quanto mais a vivenciamos, mais aprendemos. Por mais que, às vezes, eu pense em parar por causa de problemas de saúde ou da idade, na mesma hora vejo que essa é a minha motivação para viver”.

Diretora das empresas da família, tem como rotina viagens e compromissos. Divide o tempo entre cabeça e coração e gosta da vida como está: seu recanto na fazenda, dos animais e de estar acompanhada dos familiares e de uma equipe de trabalho, que se tornou família também.

Depois de fechar o último ano consagrada como Melhor Criadora e Expositora de Nelore Mocho, Dalila agora quer mais saúde para continuar fazendo algo em prol da raça Nelore Mocha. Um olhar para a estante de casa, cheia de troféus, faz lembrá-la dos momentos de satisfação que justificam seu trabalho e paixão. “Lembro-me com carinho dos momentos em que vi os resultados de tanto tempo dedicado à raça Nelore Mocha. Os prêmios são consequências do trabalho, de muita luta. Um prêmio não é ganhado simplesmente. É lutado, conquistado”.